A gente sente.

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Hoje acordei querendo pegar na mão de alguém e sair andando por aí, como se o mundo fosse preto, branco, desfocado e só o nó das mãos dessem cor ao cenário. Hoje eu acordei querendo sentir algum cheiro que me enchesse a alma, querendo um toque que me fizesse sair do chão sem tirar os pés da terra.

Eu fiquei deitado meia hora olhando para o teto, balbuciando umas frases para o vento e querendo ouvir resposta, mas só encontrei vazio, eu vasculhei minhas gavetas, li meus cadernos, eu vi meus desenhos e senti minhas palavras, mas tudo parecia distante, parecia que eu vivi uma vida em outra vida e essa outra vida estava distante demais, fria demais.

Hoje eu acordei e senti falta dos clichês, da mensagem de “bom dia”, dos “Lembrei de você”, senti falta das flores inesperadas, das visitas surpresas, dos abraços sem porquês, dos beijos sem razão, senti falta de não ter medo de gostar e ser gostado, senti falta de me desarmar e amar.

Yago Alves

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Ervilha

O mundo me parecia uma ervilha, pequeno, arredondado e insosso. Quando eu tinha 8 anos eu achava que tinha nascido para ser o próximo, o próximo eu não sei bem o que, mas eu seria o próximo, Eu tinha essa ideia fixada nas paredes do quarto e pregada em algum canto da alma, eu iria ser o próximo e eu seria melhor que o atual e eu mudaria o mundo que parecia uma ervilha e eu daria gosto e quem sabe ele viraria quadrangular ou triangular.

Com 15 anos o mundo parecia enorme, com todos os barulhos, sons, cores e pessoas, eram muitas pessoas, eu tinha acabado de sair de uma escola de bairro e tinha ido para uma escola do centro e tinha gente de todo jeito, tinha porteiro aceitando cigarro como “suborno” para deixar os atrasados entrarem depois das 07:30, tinha professora que dava respostas nas provas, tinha meus novos amigos que pareciam muito pra frente e o mundo deixou de ser uma ervilha e virou um mutante, e eu deixei de querer ser o próximo, porque eu queria me esconder porque eu não me achava pronto pra aquilo tudo, logo eu que tinha aprendido a pegar ônibus aos 14 anos. Eu me escondia quando estavam montando algum time na aula de educação física, me escondia quando pediam para falar em público, me escondia tanto que as vezes nem eu me achava e eu chorava antes de dormir porque sentia um medo absurdo de ser engolido pelo mundo.

Com 17 anos eu estava no terceiro ano e o mundo era enorme e chato, mas ao mesmo tempo pequeno e encantador, porque todos os meus amigos passaram a conhecer meus outros amigos sem eu se quer notar, porque eu sentia nas costas enquanto carregava apostilas para lá e para cá o quanto a tendência de tudo aquilo era só piorar dali em diante, porque eu passei a admirar mais a cor do céu, ou o cheiro da chuva e eu criei uns laços que duram até hoje.

Eu parei de chorar antes de dormir, eu parei de me esconder até porque o mundo me engoliu tantas vezes e me vomitou outras tantas que perdi o medo de ir, atualmente eu sofro com um medo absurdo de não ir.

Yago Alves

Ainda não, mas vai ser.

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Ainda não é amor, mas quando você me abraça o mundo fica menos entediante e eu me sinto em um daqueles praias paradisíacas que a gente só vê em filmes. Ainda não é amor, mas eu gosto do toque, do cheiro, do beijo e ultimamente o som da sua risada tem sido meu som favorito, o número 1 da billboard.

Ainda não é amor e eu tinha prometido não escrever sobre clichês, mas você me faz querer escrever sobre clichês, me faz querer falar que você desperta meu lado mais bonito, o lado mais azul do meu eu

Ainda não é amor mas se eu encontro uma moeda de um real na rua, ou se um carro passa por cima de uma poça de lama e me suja em um dia de chuva, é automático, teu nome vem na minha mente, e eu sinto vontade de te contar.

Ainda não é amor, mas eu te digo sim mesmo ainda não sendo amor, porque mesmo não sendo amor você faz nascer flores, frutos e traz chuva para um sertão onde eu pensava que nada mais floresceria.

Texto: Yago Alves

O ultimo adeus. As águas de março e o quarto que deixou de ser escuro.

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Quando dezembro chegou ele trouxe o inverno, a neve invadiu a casa toda, os armários da cozinha, nossa cama, nosso guarda-roupa, seu peito que antes me servia de cobertor começou a me dar mais frio, não se ouvia nada além do vento e da chuva, mas teu silêncio gritava.

Era estranho te ter por perto, mas ao mesmo tempo não te ter, era estranha a sensação de querer te beijar e mesmo te beijando não sentir teu beijo, e toda noite antes de dormir para manter nossas guerras de egos fazíamos questão de expor nossas feridas e cutuca-las, quem antes era remédio, virou veneno, até que um dia nossas diferenças nos engoliram, nossos erros ficaram estampados na parede do quarto e o fim que antes era personagem secundário na nossa historia, virou protagonista e roubou a cena, o publico ficou chocado, houveram vaias, alguns pediram o dinheiro do ingresso de volta, outros deram graças a Deus.

Eu te vi ir com um sorriso no bolso e um alivio estampado no rosto.

Dezembro passou.

Janeiro chegou, eu perdi teu numero, pintei a parede do quarto, mudei os moveis de lugar e uma flor começou a nascer no canto escuro onde eu prometi que não deixaria mais brotar nada.

Fevereiro foi folia, passou voando e a flor no canto escuro só crescia.

Março chegou e você quebrou nosso jejum de silêncio, nos chamamos pelo nome, falamos sobre a vida, o tempo e mandamos lembranças para familiares. Educados e diretos.

As águas de março limparam cada gota de mágoa que eu carregava no peito, mesmo você não pedindo, eu te perdoei, e o mais importante, eu me perdoei.

Não existem mais cantos escuros no meu quarto e a flor que brotou em janeiro começou a soltar perfume por toda parte.

Texto: Yago Alves.

Sobre uma época fria.

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Zé, queria te dizer que ainda dói, não como antes, mas dói, arde toda vez que eu fecho os olhos antes de dormir, me parte ao meio quando eu ouço aquela música, me faz chorar quando eu vejo aquela foto, a ausência me corrói o peito Zé, e eu transbordo mesmo vazio.

Existem dias pares e ímpares, existe uma montanha russa gigante dentro de mim, eu vou ao céu e de repente vou ao inferno, e depois volto para o céu, é assim o dia todo Zé, não tem sossego, não tem remédio na farmácia, nem soro nos hospitais que faça isso tudo parar.E o “tudo” parece grande demais, ele me engole, e depois me vomita.

Estou cansado de ir e vir, eu só queria ficar.

Texto e ilustração: Yago Alves

Seria demais pedir que você mergulhasse?

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Eu vejo flores e também vejo cactos em você, o que não soa tão poético mas acaba sendo quando se trata dessa linha azul e cinza que nos junta e nos forma.

Tenho colocado meu coração num potinho de geleia e escondido em baixo da cama porque tenho medo de te assustar com o tamanho, eu tenho mordido a língua para não falar demais, porque eu tenho essa mania de falar demais, escrever demais e azedar o arroz.

Ontem eu te contei sobre a minha dor nas costas e da gripe que possivelmente está chegando, você me contou das notas da faculdade e me encheu de música, adoro a mania que você tem em ser um spotify ambulante, eu te vejo como uma playlist enorme e eu sempre quero te escutar mais, e mais, e me sinto como um mar, e por mais que eu tente te puxar para dentro de mim, você insiste em só molhar os pés.

Texto : Yago Alves

Ilustração: Henrique Haroldo

Recíproco

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A gente marca o encontro na quinta, e começa a roer as unhas na segunda, tudo bem, rola uma crise de ansiedade, rola um frio na barriga, rola uma vontade de querer que os dias passem mais rápidos, de repente você sente o cheiro da pessoa do nada e pensa nela quando ouve aquela música na playlist aleatória do spotify.

Terça ta tudo ok, na quarta, então, na quarta, você começa a se encher de perguntas. Você enche as paredes do quarto com interrogações e nas horas vagas as paranoias poluem sua mente, a pergunta que fica estampada na sua testa em letreiros de boate é “será que é reciproco? ”

Depois de sentir sozinho, nadar sozinho, pular de um penhasco e não ter ninguém para te socorrer quando você chega ao chão, depois de morrer tantas vezes, a suspeita do “Não reciproco” aumenta, umas paredes de concreto se levantam, você se arma, porque tem medo, medo de azedar a comida, medo de pensar, e não ser pensado, sonhar e não ser sonhado, lembrar e não ser lembrado.

A gente sorri, a gente beija, abraça e antes de dormir a gente lembra um pouquinho de tudo, a gente cruza os dedos e pede baixinho que seja reciproco.

Texto: Yago Alves

Ilustração: Henrique Haroldo

A gente queria.

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A gente não quer mil likes em uma foto no instagram, a gente quer alguém para fazer cafune enquanto a gente reclama que nossas fotos estão todas iguais.

A gente não quer comentário elogiando o cabelo, nem falando do sorriso, a gente quer abraço que aquece, beijo que cura e essa mistureba toda que o amor traz.

A gente não quer a agonia de receber mil mensagens por dia de dez grupos diferentes de centenas de conversas diferentes, a gente quer a paz de deitar no peito do outro e achar as batidas do coração a melhor trilha sonora do mundo.

A gente não quer ser reconhecido na rua, nem andar falando com todo mundo, a gente quer ser anônimo e entrar no cinema de mãos dadas e se beijar como se o filme não importasse, e se amar como se o mundo não fosse nada além do cenário da nossa história, a gente só queria um amor que ficasse.

 Yago Alves

Cupcake

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A gente nunca se falou, digo, eu nunca ouvi sua voz, quer dizer, ouvir naquele dia, mas não lembro como ela é você também ouviu a minha, eu acho, mas não sei, às vezes fico tímido demais e penso que falei, mas na verdade não falei e só acenei a cabeça como quem diz “to te vendo, mas não vou até ai, porque se não te assusto”.

Você costuma sorrir com os olhos, admiro quem faz isso, sabe? Porque sua boca pode não sorrir, mas seus olhos sorriem, e quando sua boca sorrir e seus olhos sorriem juntos, é como um big bang do “bem”, explosão estrelar, talvez, mas não sei, eu não sei quase nada, não sei usar vírgulas, nem sei o que fazer comigo.

Naquele dia eu queria ser invisível, mas queria que você me visse, eu queria ser surdo, odeio todo aquele barulho, mas queria que você me ouvisse. Naquele dia depois das vinte e duas, quando eu finalmente tomei coragem nas pernas, no peito, e na língua, você já estava de saída, lembro de te ouvir falar:

“Vou pegar meu cupcake”,

Lembro que sorri e perdi toda a coragem.

Lembro que desejei ser teu cupcake.

Yago Alves

Nosso Homicídio

tecto-astronalta-azulOntem ele disse que a vida era um enorme parque de diversões e que estava cansado de ficar na montanha russa, um dia sorrindo, dois dias deitado na cama não querendo ver nada nem ninguém.

Ontem ele pediu aconchego e chamou meu nome como quem diz que precisa de alguém, e que esse alguém talvez pudesse ser eu, já que eu estava e sempre estive ali, esperando um sopro, um beijo, um oi, um estou bem, mas nunca um adeus. Adeus dói na alma, parte o peito em dois, definitivamente aprendi a detestar os “adeus”, porque eles costumam ser dolorosos e regados de agonia, saudade e medo.

Eu sussurrei antes de dormir que não queria que o mundo me engolisse, eu sussurrei nosso “adeus” para a parede branca do quarto, eu escrevi teu nome no espelho embaçado do banheiro, eu quis dançar contigo no parque, andar na tua montanha russa, sorrir um dia e os outros dois ficar deitado na cama não querendo ver nada, além de você.

Eu quis virar eterno para nunca morrer dentro de ti, mas ontem te vi com uma faca coberta de sangue que não era teu e finalmente a ficha caiu, você me matou, mas esqueceu de me avisar, você não me queria mais vagando pelo teu peito, decorando as paredes e colando fotos no mural do quarto.

Você cansou do meu sorriso amarelado, do meu mau humor matinal e da minha mania de sempre te querer por perto.

Texto: Yago Alves – yauugo@gmail.com – FACEBOOK 

Ilustração: Gillian Rosa