A morte prematura do amor

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Nos conhecemos em 2012, você queria conhecer o mundo e eu queria ficar trancado em casa porque a confusão do mundo me assustava. Você com seu all star desamarrado e eu com minha mania de querer te proteger de tudo, amarrando teu cadarço em cada esquina e esquecendo dos meus. A gente ficou, quer dizer, ficamos juntos, sem compromisso você dizia que era melhor, sem sentimentos eu dizia que era o certo, mas no fundo você, eu e todos os nossos amigos sabiam que existia algo ali, algo além de atração, uma faísca capaz de provocar incêndios.

Mas um dia você simplesmente sumiu, disse que precisava ser livre, e eu entendi que era impossível prender alguém em uma jaula quando as asas desse alguém conseguem ser maiores que a sua casa, a sua vida. Ontem eu te vi, depois de tudo, eu queria não ter sorrido, nem elogiado teu cabelo, nem falado que sentia saudades do teu cheiro,mas você sabe  cervejas me deixam sinceros demais.

Você sorriu, sorriu muito e me disse que nos eramos pegadas deixadas em um cimento fresco, por mais que o tempo passe sempre vamos permanecer ali um no outro como claras lembranças de um amor mal vivido de um amor que morreu antes de nascer. Você beijou minha bochecha e sussurrou no meu ouvido que fizemos o certo, eu apertei seu braço e disse que fazer o certo nunca tinha sido tão difícil.

Eu e você sabemos que vamos nos encontrar  em um dos bares da vida e vamos falar sobre o tempo e quem sabe se beijar só para não esquecer do gosto um do outro, nos somos e sempre vamos ser um do outro mesmo sem querer, mesmo sem entender, mesmo sem saber.

Texto: Yago Alves – yauugo@gmail.com 

Ilustração : Brenno Nogueira – FACEBOOK

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“Errado”

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Ontem ele deixou algumas migalhas de pão na mesa da cozinha, desarrumou a cama, virou o sofá de cabeça para baixo, algo estava errado, aquela casa estava errada, ele estava errado. Rezou baixinho a ave Maria que aprendeu quando tinha dez anos e fechou os olhos, preferia ver a escuridão do que se enxergar ali sozinho e sem sentido

O chão era gelado e as paredes eram quentes, nada era suficiente, sempre faltava o açúcar ou o sal, sempre havia um pedido de socorro vindo da cozinha, os gritos eram dele, e ele nunca percebia.

Ontem ele ligou para todos os contatos do seu celular, mas nenhum atendeu, o “piii” era constante e então surgia a voz pedindo para gravar um recado depois do sinal, ele não sabia o que falar, já tinha falado e feito demais, quebrou copos e mesmo conseguindo colar todos os caquinhos, nunca mais foram os mesmos, suas amizades eram assim, copos quebrados.

A madrugada era silenciosa e o silencio nunca agradou seus ouvidos, ele queria ouvir e ser ouvido, queria a tão sonhada reciprocidade, estava cansado de nada contra a maré, correr contra o vento e saltar de para quedas (sem paraquedas).

Ontem ele virou de um lado para outro da cama, não conseguia dormir, o cansaço não era físico, e como diria Cicero só queria descansar de quem ele mesmo escolheu ser.

Texto: Yago Alves – yauugo@gmail.com – FACEBOOK 

Ilustração: Juliana Barbosa –  http://instagram.com/juuhbp

Domingo.

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Domingo de manhã o amor bateu na minha porta, como quem diz “deixa eu arrumar essa bagunça”, minha perna encontrou a sua e sua mão encontrou a minha, não havia nada demais em dar as mãos ou enroscar uma perna na outra, não havia nada demais em se aquecer um no corpo do outro. Te abracei como quem pega um cobertor para se proteger do frio, e você me deu aconchego como quem abraça um urso de pelúcia antes de dormir.

Nossas bocas se encontraram no escuro, sua mão percorreu meu corpo, como se você fosse um cego e eu seu livro em braile, eu te desei usar minhas cores, você me deixou usar teu cheiro, você se perdeu nas minhas fronteiras e eu te guiei como se você fosse um barco sem cais. Eu quis ser teu cais.

Você notou que meu coração batia mais rápido que o normal, mas eu neguei, porque mesmo exposta, estando ali nos seus braços, eu quis mentir pra não te assustar com esse meu coração inquieto, e mesmo dizendo não, o resto do meu corpo gritava que sim, mesmo sabendo que teu coração não batia na mesma intensidade do meu, meu corpo continuava dizendo sim.

Nossa troca de calor e caricias não durou muito, porque a chuva passou e o frio também. Meu calor não era mais necessário para o teu corpo, mas o amor continuou batendo na porta, uma, duas, três vezes, mas você me disse que não sabia onde tinha colocado as chaves, o amor continuou batendo mas você me pediu para fazer silêncio e respirar baixinho.

Outro dia começou e nós nos vimos em alguma das esquinas da cidade, você sorriu para mim, falou do tempo, da queda do dólar, do preço do tomate, mas nunca sobre nós, como se fosse uma visão que só eu tive, nossa manha de domingo parecia ter passado despercebida para você, e eu dancei teu tango, comentei que odiava tomate, o amor parou de bater quando notou que você não ia abrir a porta, mas eu continuei pensando em você, em nós.

Texto: Yago Alves – yauugo@gmail.com – FACEBOOK 

Ilustração: Jaque- jaqueealmeidaa@gmail.com

Transbordar.

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Meus pais disseram que passaria logo, minha mãe fez questão de dizer que sararia tão rápido quanto aquelas feridas no joelho que eu ganhava depois das quedas, meu pai me falou que o arco íris ia nascer depois dessa tempestade e me fez prometer que eu procuraria o pote de ouro, mesmo não sabendo o caminho.

Mas se passaram meses e as feridas não sararam eu já usei todos os remédios da gaveta, das baladas, das lojas e dos shoppings, mas elas continuam aqui, a noite elas costumam doer mais, são lembranças, gostos, cheiros que invadem cada parte de mim me lembrando do filme que eu vivi e que mesmo parecendo um romance, era um filme um terror.

Esse quarto nunca pareceu tão pequeno, essa cama nunca pareceu tão grande e fria. A janela nunca pareceu me chamar tanto para fora. Se eu prender a respiração forte eu consigo sumir daqui? Se eu contar até 1000 tudo isso vai sumir e eu vou voar? Eu sinto que peso mais de uma tonelada, mesmo não pesando mais de 50kg, eu sinto que posso explodir a qualquer momento e machucar todos ao redor.

Eu escrevi “clichê” na minha testa e tatuei sentimental no meu peito, ando cansado dessas agonias e dessa mania chata de transbordar

Texto: Yago Alves – yauugo@gmail.com – FACEBOOK 

Ilustração: Juliana Barbosa –  http://instagram.com/juuhbp

Confissões de Maria

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Lembro que quando conheci o Jorge ele tinha dezesseis e eu dezoito. Ele tinha pose e tamanho de maior de dezenove e eu encontrava naquele sorriso amarelado tudo que tinha procurado durante anos, nossas mãos se encaixavam, e as marcas no nosso pescoço nos denunciavam, batemos fotos, marcamos passeios, planejamentos viagens, de dez músicas românticas vinte eram nossas, Banda do Mar, Cazuza, todos faziam parte de nós.

Ele me falava em casamento, e eu dizia que ainda era cedo. Ele me abraçava forte e eu dizia que estava com calor mas nós nos entendíamos em nossos desentendimentos diários, ele me fez querer ir para a direita mesmo sabendo que a esquerda era o caminho certo, ele me fez gostar de enigmas porque tinha a mania de ser indecifrável.

Mas semana passada o Jorge não atendeu minhas ligações, a amiga dele disse que ele estava meio doente, não queria sair, mas minha outra amiga disse que viu ele em um barzinho perto de casa com uns amigos da escola, eu tinha muita coisa para fazer e uns trabalhos para entregar, o Jorge foi ficando assim de lado, mesmo sendo o centro dos meus pensamentos e dono das minhas vontades.

Entre um abrir e fechar de olhos Jorge sumiu. Não houve adeus. Nem até logo. Nem obrigado. Apenas eu saindo de fininho da mesma maneira que entrei. Jorge nem notou quando fechei a porta.

Ele deixou todas as minhas gavetas bagunçadas. E minha cozinha de pernas pró ar.

Texto: Yago Alves – yauugo@gmail.com 

Ilustração : Brenno Nogueira – FACEBOOK

 

 

NÃO É UM TEXTO FELIZ SOBRE O NATAL

Eu lembro que dormi abraçado com meu lençol e que na minha mente eu via renas, neves e um velho gordo vestido de vermelho, quando acordei tinha uma bicicleta do lado da minha cama, eu tinha uns oito anos e a janela do quarto estava aberta e o céu estava nublado e todo aquele encanto de natal me envolvia, “o Papai Noel esteve aqui” eu falei e minha mãe confirmou com um sorriso quinze para três no rosto. Eu lembro que passei o resto do dia com minha bicicleta nova, agradecendo ao velho gordo pelo presente e achando aquele dia o melhor do ano, não só pela bicicleta, mas por tudo, até o vento daquele dia parecia ser diferente dos outros.

Isso foi há uns dez anos atrás, hoje eu acordei querendo fechar a janela o quanto antes porque o sol que entrava por ela estava me incomodando, não tinha bicicleta, nem caixas decoradas, nem minha mãe sorrindo com uma máquina fotográfica na mão, só tinha as roupas que eu usei semana passada e não coloquei no cesto e um cheiro de “um dia mais terrível acabou de começar”.

Acho que quando a gente cresce o dia 24 de dezembro vira só mais um dia no calendário, o dia 25 se torna só mais um feriado do ano e sua vidinha continua seguindo o mesmo rumo. Ás vezes você compra alguma coisa nova só para se sentir encaixado na multidão que vai aos shoppings comprarem roupas para desfilarem na sala de casa e provarem uns para os outros que estão felizes e tem dinheiro para gastar, mesmo sua tia no fundo sabendo que parcelou aquele sapato e aquela saia em vinte quatro vezes sem entrada e sem juros.

Hoje eu acordei querendo dormir de novo porque toda a publicidade que envolve essa época do ano me irrita e todo aquele papo de “É natal vamos todos esquecer nossos problemas” me irrita mais ainda, mas o que mais me irrita é que mesmo sem querer você lembra de tudo que fez no ano, e todo a onda de arrependimentos invade a sala, o quarto, a cozinha da sua casa e você fica querendo não morrer afogado, procurando um salva vidas em algum lugar, mas tudo que encontra é a água fria entrando nos seus pulmões e você morrendo no fundo de um mar que você mesmo criou.

Eu fechei o olho uma, duas, três vezes mas o barulho que vinha da rua não me deixava dormir, era um barulho que queria me lembrar que é natal, e que existem crianças brincando de amarelinha e que no sorriso delas você consegue ver que tem uma luz lá no fim do túnel e que existem dias nublados e ensolarados e cabe a você aprender a usar seu guarda-chuva ou seu protetor solar. Eu lembrei que mesmo não sendo mais uma criança de oito anos se eu fechar os olhos e respirar fundo eu consigo ser feliz.

Yago Alves

Sem você.

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Eu tento jogar tudo no lixo, juro que tento. Mas o teu cheiro está impregnado de uma forma que eu não posso expulsá-lo, de uma forma que eu não posso te expulsar. Já cansei de anotar em um caderninho todas as tentativas falhas nas quais tentei te esquecer, já cansei de comprar cadernos novos porque os antigos estavam cheios de desilusões e desabafos.

Me ensina como sair de mim? Se não quiser ensinar, tudo bem, mas ao menos sai. Deixa de destruir toda tentativa falha de reconstrução de mim. O que eu mais odeio em você é que isso não é culpa sua, você nem aqui está… Pelo menos de corpo presente não. Você foi embora a muito tempo mas a sua presença ainda pesa no meu peito. O peso que eu sentia quando você deitava e dormia nele.

Tudo ao meu redor me lembra você e isso dói. Dói por eu não conseguir estancar o sangue e a hemorragia interna que tua destruição abstrata causa, pelo resto de amor que se tornou parasita de um ser que a muito tempo não sabe o que é paz. A ilusória paixão por tudo que é contrário a você é só uma birra de criança que não consigo entender… Já me afastei de mim a séculos atrás. Sou um andarilho dentro do meu corpo e tudo que faço hoje é sentir uma dor nova a cada dia. Essas tem sido minhas novas experiências, dores novas.

As velhas se cansaram de alojar um corpo remoso e bom… Pelo menos algo é novo. Faça o que quiser com esse texto. Queime, jogue fora, guarde, rasgue. A escolha é sua. Só queria que soubesse que o céu sem você aqui é vermelho, da cor do sangue da hemorragia.

Texto: Allan Sampaio – FACEBOOK

Ilustração : Brenno Nogueira – FACEBOOK

Queimaduras.

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O leite esquentou mais do que o normal, a fumaça que sai do copo me deixa nostálgico. Como uma música antiga que já foi minha trilha sonora, ou como aquela roupa que eu costumo usar só para lembrar do cheiro daquela primavera, mesmo aprendendo a detestar a primavera depois de tudo.

O inverno chegou mais forte do que nos livros de George R. R Martin, não há cavaleiros , nem reis. nem rainhas, nem trono de ferro. Existe apenas eu tentando lidar comigo mesmo, com meus fantasmas e demônios.

Tentei beber o leite quente duas vezes. Na primeira queimei a língua e lembrei que nunca tive paciência para nada. Nasci de oito meses. Aprendi a ler antes de todo mundo e insisto em falar rápido demais tudo, ou quase tudo

Na segunda vez queimei a boca e lembrei que essa minha falta de paciência já me deu vários prejuízos e centenas de queimaduras no peito, aquelas feridas da alma sabe? Que de vez em quando insistem em dar um “oi”

Desistir de beber o leite como desistir de ir atrás de você ontem quando eu notei que eu era uma formiguinha passando em meio ao seu pote enorme de açúcar, desistir de beber o leite e de provar o gosto da sua boca porque  já cansei dessas queimaduras e dessa minha mania chata de correr atrás do ônibus mesmo sabendo que o motorista não vai parar.

Texto: Yago Alves – yauugo@gmail.com 

Ilustração: Malu  – falling_series@hotmail.com

Primavera.

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O preço da saudade quem vai pagar?

E as lágrimas quem vai contar?

A saudade de um amor que foi lindo ontem e hoje é um bicho papão de sete cabeças, que te engole e vomita ao mesmo tempo, que te desconstrói e reconstrói só para mostrar quem manda.

Todo mundo já perdeu alguém, já chorou por alguém, já quis um alguém de volta pela simples sensação de ter, de viver novamente a primavera, mesmo sabendo que nenhuma primavera é igual a outra.

Morremos centenas de vezes e fazemos questão de ficar no fundo do poço dando um “Oi” para a Samara Morgan. A gente insiste em querer ouvir de novo aquela música mesmo sabendo que o CD está arranhado, a gente insiste em querer dançar mesmo sem pernas, mesmo sem música.

Insistimos em querer agente junto mesmo sabendo que estamos errados e que nossa soma se tornou exata demais, deixamos de ser 1 + 1 = 1 e nos tornamos 1 + 1= 2, separados, distantes, certos, mas errados.

Texto: Yago Alves – yauugo@gmail.com – FACEBOOK 

Ilustração: Juliana Barbosa –  http://instagram.com/juuhbp

Sabemos que ia acabar.

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Eu já tinha visto esse filme várias vezes e sabia como ia terminar :eu sozinha numa noite de sexta-feira tentando entender porque ainda acredito no amor, porque ainda acredito no amar, mas mesmo assim decidi comprar o ingresso, mesmo assim eu comprei pipoca amanteigada e esperei sair da sessão feliz.

Nós dois sabemos que você não vai me ligar porque encontrou minha escova de dentes no seu banheiro, nós dois sabemos que você já mudou as fechaduras da porta e a chave que eu guardo no bolso não abre mais nada, além dessas feridas, dessas chagas que eu tenho no peito.

Nós dois sabemos que esse dia chegaria, mesmo quando você me beijava e dizia que íamos ser eternos, mesmo quando você me abraçava e dizia que o mundo não ia nos quebrar e veja só meu bem, o mundo nos quebrou e nos esmagou como se fossemos galhos secos de uma árvore qualquer.

Nós dois sabemos que um dia vamos nos encontrar em alguma dessas esquinas, que vamos nos cumprimentar com um “Oi” e que seu olhar vai destruir todo o meu castelo, porque podem se passar cem anos mas você sempre vai conseguir tirar o ar dos meus pulmões e a força das minhas pernas.

Texto: Yago Alves – yauugo@gmail.com 

Ilustração: Malu  – falling_series@hotmail.com